domingo, 14 de julho de 2019

A criptomoeda do Facebook deve revolucionar sistema financeiro global

Ao anunciar o lançamento de sua moeda digital, o facebook chancela as criptomoedas e deve revolucionar o sistema financeiro global  (Foto: Getty Images)

Lançada em meados de junho passado, a criptomoeda do Facebook, a libra, representa o turning point do sistema financeiro global. “Nossas moedas vão desparecer”, avalia o mexicano Arturo Bris, professor de finanças e diretor do IMD World Competitiveness Center, de Lausanne, na Suíça. “Nossa economia monetária está se transformando em uma economia de token.” O dinheiro, da forma como o conhecemos e lidamos com ele, nunca mais será o mesmo. Em breve, prevê Arturo, haverá apenas um único meio de pagamento global. Ao entrar para a indústria de ativos digitais, a empresa de tecnologia, com seus 2,7 bilhões de usuários, pode fazer com que as criptomoedas deixem de ser apenas um conceito inovador, mas com pouca utilidade prática, para levá-las de fato ao mundo real. “Até o ano passado, havia muita incerteza sobre as criptomoedas”, lembra Arturo. “Mas o investimento de uma gigante como o Facebookmostra que elas são o futuro.”
Sob o comando de David Marcus, vice-presidente do Facebook, a libra deve entrar em circulação em 2020. A ideia é a de que ela seja utilizada em aplicativos como o Messenger e o WhatsApp. Para isso acontecer, porém, é imprescindível fazer o que nenhuma empresa de cripto jamais fez. De modo a dar credibilidade à iniciativa, o Facebook criou a Libra Association, uma organização sem fins lucrativos, com sede em Genebra, na Suíça, já chamada de Cripto Valley. Responsável pela governança da moeda, essa aliança é formada por companhias como Uber, Visa, Mastercard e Booking.com, entre outras. Quanto custa o ingresso para esse seleto grupo de apoiadores? US$ 10 milhões, para dar lastro à moeda e evitar flutuações pouco convidativas como as observadas pelas primeiras criptos, como o bitcoin, a pioneira e a mais famosa delas.
No documento de apresentação da libra, o Facebook é bastante claro sobre seu público-alvo — os desbancarizados com acesso à internet. Globalmente, 1,7 bilhão de adultos estão fora do sistema bancário. Deles, 1 bilhão tem telefone móvel, e a metade acessa a internet por esses dispositivos. Para Arturo Bris, as criptomoedas devem afetar sobretudo os mercados emergentes, os que mais necessitam de soluções em massa. “Em vez de gerar mais poder aos poderosos”, diz ele, “a tecnologia deve ser uma ferramenta de inclusão”.
Ao Wall Street Journal, o analista Ross Sandler disse que a operação do Facebook no setor das criptomoedas tem potencial de entregar, em 2021, US$ 19 bilhões em receita — ironicamente, esse mesmo valor foi pago por Mark Zuckerberg, em 2014, pelo WhatsApp, um dos vetores da nova empreitada. Até lá, no entanto, o caminho não será fácil. Com o Facebook sob investigação federal, a libra acendeu o alerta das agências regulatórias. Órgãos ao redor do mundo, como o americano Fed e a Autoridade de Conduta Financeira britânica, já avisaram: eles estão de olho.
David Marcus, vice-presidente do Facebook, está à frente do lançamento da libra, a criptomoeda da empresa (Foto: Getty Images)
Desde os seus primórdios, as criptomoedas estiveram cercadas por desconfiança. Seriam instáveis demais para o uso como meio de troca, especulativas demais para serem consideradas um investimento sério, desreguladas demais para contribuir com as autoridades no combate a práticas criminosas, como a lavagem de dinheiro. Nos últimos dois anos, por exemplo, o bitcoin embarcou em uma verdadeira montanha-russa. Em 2017, alcançou o pico histórico de cotação, US$ 19,6 mil, para encerrar 2018 a US$ 3,12 mil — uma queda acumulada de 80%. Ethereum, XRP e boa parte das 2.093 criptomoedas em circulação na rede também escorregaram feio, segundo a plataforma Coinmarketcap. Não faltou quem ligasse o alerta de bolha, e uma parcela considerável de economistas, investidores e autoridades globais — do megainvestidor Warren Buffett ao fundador do Alibaba, Jack Ma — renovaram as críticas a esses ativos digitais.
O paradoxo é que os julgamentos ocorrem em um momento em que a tecnologia por trás das criptomoedas, o blockchain, ganha tração e elogios pela transparência, confiabilidade e possibilidade de vários usos, além das transações financeiras. Com isso, fica uma dúvida no ar: há redenção para as criptomoedas? “Ainda estamos muito no início dessa história”, resume Tatiana Revoredo, especialista em blockchain pelo MIT e pela Universidade de Oxford e representante do European Law Observatory on New Technologies no Brasil. “É como comparar com a internet na década de 80. Quase ninguém tinha ideia no que ela iria se transformar.”
Nos últimos dois anos, entusiastas das criptomoedas deflagraram uma verdadeira cruzada para emplacar seu uso para além do campo do investimento meramente especulativo. Um exemplo é a captação de recursos por meio dos ICOs (ofertas iniciais de moedas, na sigla em inglês). Com o instrumento, uma empresa cria tokens (fichas ou cotas digitais) que são distribuídos aos investidores em troca de funding para o negócio — sistemática que emula a captação de recursos via oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês). Foram US$ 21,5 bilhões captados em 2018 nessa modalidade, alta de 227% sobre 2017, segundo a plataforma CoinSchedule.
Em outra seara, a bolsa de Chicago lançou um mercado futuro de bitcoins em 2017. A Nasdaq, segunda maior bolsa de valores do mundo, promete seguir o mesmo caminho em 2019. Em setembro de 2018, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), autarquia que regula o mercado de capitais no país, publicou ofício liberando fundos brasileiros para comprar cotas de fundos estrangeiros que compõem ou sejam compostos em parte por criptomoedas.
Ao anunciar o lançamento de sua moeda digital, o facebook chancela as criptomoedas e deve revolucionar o sistema financeiro global  (Foto: Getty Images)
Uma das áreas mais promissoras em que as moedas digitais buscam ganhar tração é a da transferência internacional de recursos. Hoje, as remessas crossborder utilizam a plataforma Swift, um sistema bancário global complexo, com compliance exigente e cuja validação das operações pode levar dez dias. O gargalo para o uso das criptomoedas nessa seara é regulatório. Hoje, o envio de remessas para o exterior exige o fechamento de uma operação de câmbio e o aval das autoridades monetárias. “Temos recebido consultas de multinacionais que desejam entender a possibilidade de utilizar o bitcoin para esse tipo de transação”, diz Reinaldo Rabelo, diretor da exchange Mercado Bitcoin. “A ideia é usar a criptomoeda em uma plataforma de blockchain própria que registre todos os passos da operação, auditada pelo Banco Central e com o fechamento de um câmbio simbólico da operação.” A operação levaria em torno de dez minutos.
Em 2008, Satoshi Nakamoto causou barulho com o manifesto Bitcoin: um sistema de dinheiro eletrônico entre pessoas físicas. Pseudônimo de um personagem cuja identidade permanece um mistério até hoje, ele defendia a criação de uma moeda digital que poderia ser transferida de pessoa para pessoa com cobrança de taxas muito baixas e sem passar pelo sistema financeiro tradicional. Uma reação à crise financeira que eclodiu naquele ano.
O uso das criptos como meio de pagamento, porém, ainda engatinha. “A volatilidade das cotações incentiva os compradores a guardá-las, em vez de usá-las no dia a dia”, diz Rosine Kadamani, cofundadora da Blockchain Academy. É a versão 2.0 do dilema do ovo e da galinha. “As pessoas só usam a moeda se a cotação for estável, e a cotação só fica estável se mais pessoas utilizarem a moeda”, diz Roger Ver, fundador da plataforma bitcoin.com.
Parte do boom na cotação da criptomoeda em 2017, conforme os especialistas, decorreu da expectativa de que gigantes do e-commerce passariam a aceitar a moeda, o que não ocorreu. Em geral, o bitcoin se mostra útil para pagamentos de valores mais altos, como a compra de uma casa, sem a urgência na validação da operação. Pelas taxas atreladas e o tempo para processar uma operação, não é o meio mais eficiente para comprar uma pizza.
O investidor Warren Buffett e Jack Ma, do Ali Baba, estão entre os mais críticos em relação aos ativos digitais (Foto: Getty Images)
Como resposta ao problema, surgiram nos últimos anos as stablecoins, moedas virtuais lastreadas em ativos reais (moedas fiduciárias, ouro, commodities). “Ao buscar a paridade com o dólar, o real ou o barril de petróleo, diminui-se a volatilidade, porque o que flutua é a cotação desse produto e não a moeda em si”, diz Yoshimiti Matsusaki, membro da Comissão de Estudo Especial da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), sobre a padronização mundial do blockchain. “A grande dificuldade de emplacar as criptos como meio de pagamento é porque são moedas globais, influenciadas pelo que acontece no mundo todo. Talvez a solução esteja no surgimento de uma moeda estável ligada a nichos, uma comunidade, um bairro, uma cidade. Ao reduzir o grupo de usuários, você também reduz os riscos.” Para Tatiana Revoredo, “a solução pode ser, por outro lado, a criação de uma única moeda global, regulada por um único Banco Central global”.
As stablecoins começam a proliferar — e também atraem a atenção dos grandes bancos. Estima-se que existam ao menos 20 dessas moedas em circulação. Seis grandes instituições internacionais — incluindo o Bradesco — assinaram, no início de 2019, uma carta de intenções para lançar suas próprias stablecoins, pareadas com suas moedas locais, na plataforma de pagamentos em blockchain da IBM.
Em fevereiro, o JP Morgan, maior banco americano de investimentos, anunciou o lançamento de sua própria criptomoeda. A ideia é que a JPM Coin seja pareada com o dólar. Na prática, os clientes receberão as moedas digitais depois de depositar dólares no banco. Ao usar os tokens para um pagamento, o banco destruirá as moedas e devolverá aos clientes um número proporcional de dólares.
O caminho para o uso das criptomoedas para além de reserva de valor será longo e imprevisível — mas não inviável. Tende a avançar conforme medidas regulatórias, ao lado de políticas de prevenção de fraudes, sejam adotadas por governos, autoridades monetárias e comissões de valores mobiliários, uma espécie de selo de garantia de segurança aos participantes do sistema. “A tecnologia e a regulação precisam andar lado a lado”, diz Tatiana Revoredo.
Ao anunciar o lançamento de sua moeda digital, o facebook chancela as criptomoedas e deve revolucionar o sistema financeiro global  (Foto: Getty Images)
O Japão é um dos poucos países a avançar na regulamentação dos criptoativos. Desde abril de 2017, as corretoras de moedas digitais são regulamentadas e precisam ser registradas na Agência de Serviços Financeiros. Um dos primeiros casos notórios de roubo de criptomoeda ocorreu lá. “Até por isso, o país começou a olhar de maneira formal para o ecossistema”, diz Courtnay Guimarães, diretor técnico da Associação Brasileira de Criptomoedas e Blockchain (ABCB).
A maior parte dos países, entretanto, ainda segue a “tática do avestruz”, a exemplo dos Estados Unidos. “As autoridades enfiam a cabeça na areia e fingem que o fenômeno das criptomoedas não existe”, diz Carlos Portugal Gouvêa, sócio do escritório PGLaw. O Brasil seguiu esse roteiro. Em 2018, o Banco Central emitiu um comunicado para alertar sobre os riscos de se comprar e guardar moedas virtuais com finalidade especulativa. Avisou que não regula operações com criptomoedas e nem tem a intenção de fazê-lo no curto prazo.
Não surpreende que os grandes bancos mundo afora resistam em cooperar com as plataformas de compra e venda — o que coloca em risco o seu modelo de negócio, já que elas dependem das instituições financeiras para receber os dólares e reais dos clientes que compram criptomoedas. Os bancos justificam alegando que o anonimato das transações pode facilitar práticas ilícitas. “Os bancos têm precauções razoáveis, considerando a falha dos reguladores em detalhar as atribuições dos agentes do ecossistema”, diz Gouvêa.
De mais avançado, há o esforço de diversas jurisdições para tributar os investimentos em moedas virtuais. Em Israel e na Bulgária, a criptomoeda é tributada como ativo financeiro. Na Suíça, como moeda estrangeira. No Brasil, elas são classificadas pela Receita Federal como ativo. Quem vende e obtém lucro encara a mordida do Leão.
Fonte: epocanegocios.globo.com

sábado, 13 de julho de 2019

Trump diz que Libra e Bitcoin não são dinheiro e devem ser regulados

Facebook Libra

Ao falar de banco, Trump se refere especialmente ao plano do Facebook de tornar o Libra uma criptomoeda global em 2020 para realização de diversos tipos de transações financeiras, como pagamentos, transferências e fornecimento de crédito.
Em uma sequência de tweets, Donald Trump começa dizendo que não é fã do Bitcoin e outras criptomoedas, pois elas não são dinheiro real e têm valor altamente volátil. Ele diz ainda que ativos criptografados não regulamentados podem facilitar ilegalidades, como o tráfico de drogas.

No entendimento do presidente, se os planos forem levados adiante, o Libra e qualquer outra criptomoeda deverão seguir os passos de todos os bancos, sejam eles nacionais ou internacionais: se sujeitar à regulamentação bancária dos Estados Unidos e outros países.
I am not a fan of Bitcoin and other Cryptocurrencies, which are not money, and whose value is highly volatile and based on thin air. Unregulated Crypto Assets can facilitate unlawful behavior, including drug trade and other illegal activity....
....Similarly, Facebook Libra’s “virtual currency” will have little standing or dependability. If Facebook and other companies want to become a bank, they must seek a new Banking Charter and become subject to all Banking Regulations, just like other Banks, both National...
10,8 mil pessoas estão falando sobre isso
Não que essa seja uma tarefa fácil. O presidente do Fed (banco central americano), Jerome Powell, já deixou claro que os planos do Facebook não poderão avançar a menos que fatores como privacidade, risco de lavagem de dinheiro, proteção ao consumidor e estabilidade financeira sejam abordados.
Powell disse ainda que o Fed montou um grupo de trabalho para acompanhar o projeto do Libra e que já está conversando com bancos centrais de outros países para tratar do assunto.
Donald Trump finalizou a sua série de mensagens enaltecendo a moeda americana: “é de longe a moeda mais dominante em qualquer parte do mundo e será sempre assim. Ela se chama dólar dos Estados Unidos!”.
Com informações: Reuters.

Tecnocast 121 – Libra, a criptomoeda do Facebook


Se o Facebook fosse um banco, você confiaria o seu dinheiro a ele? E se houvesse uma moeda digital mundial, controlada por uma associação de mais de 100 empresas e ONGs, você usaria? No Tecnocast de hoje falamos sobre o Libra, a criptomoeda do Facebook.
O objetivo da Libra Association é lançar uma moeda digital baseada em blockchain, mas sem a volatilidade do bitcoin. Se o projeto vingar e a moeda for adotada em massa, a Libra Association se tornaria uma espécie de banco central mundial, controlado por diversas empresas privadas e ONGs.
A ideia é um pouco assustadora, mas a gente explica tudo nesse episódio do Tecnocast. Dá o play e vem com a gente!


Fonte: tecnoblog.net

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Golpistas criam sites falsos da Libra, a criptomoeda do Facebook que ainda nem foi lançada

Libra, criptomoeda do Facebook, só deve ser lançada em 2020 — Foto: Dado Ruvic/Reuters


Sites maliciosos têm imitado a aparência e o nome das páginas associadas à Libra, a criptomoeda anunciada pelo Facebook, e ao Calibra, o software de carteira digital da moeda.

Segundo a empresa de segurança Digital Shadows, que encontrou essas páginas, elas promovem uma suposta venda da Libra por outras moedas, como Ethereum. Mas é um golpe: a moeda do Facebook foi apenas anunciada e ainda não está em circulação – isso deve ocorrer apenas em 2020. Quem tentar realizar a "compra" das supostas moedas não receberá nada.

Outros grupos de sites falsos trazem páginas de login de contas do Facebook e do Google para roubar as senhas das vítimas ou tentam vender serviços especiais para supostamente dar acesso à "Blockchain" (a rede que sustenta uma criptomoeda) da Libra.

Os sites registrados pelos golpistas tentam imitar o nome da Libra e do Calibra usando letras ou nomes semelhantes, como "Calìbra", "Lìbra" (letra "i" com acento grave) e "canlibrawallet". Esse tipo de ação pode ser classificado como um "ataque homógrafo" (golpes que confundem a vítima pela semelhança visual do nome) ou "typosquatting" (fraudes que se aproveitam de erros de digitação do endereço da página).

Um truque semelhante foi usado por um grupo na Europa acusado de roubar o equivalente a 24 milhões de euros (cerca de R$ 100 milhões).

A página oficial da Libra permite apenas o cadastro do endereço de e-mail para receber novidades sobre a moeda. Porém, ainda é preciso ter cuidado ao fornecer o e-mail em sites falsos: criminosos podem posteriormente enviar mensagens fraudulentas e extrair outras informações.

Fonte: g1.globo.com/economia

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Banco central da China anuncia criptomoeda própria em resposta à Libra do Facebook

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Wang Xin, diretor do Banco Popular da China (PBoC), o Banco Central chinês, declarou, segundo o South China Morning Post, que desenvolverá sua própria criptomoeda em resposta à Libra do Facebook e a correlação que ela pode ter com o dólar norte-americano, atitudes que, segundo Xin, representam um risco para o sistema financeiro internacional e para a influência na política monetária global.
“Se a criptomoeda estiver intimamente associada ao dólar norte-americano, ela poderia criar um cenário em que moedas soberanas coexistiriam com moedas digitais centradas em dólar. Mas, em essência, haveria um chefe, ou seja, o dólar americano e os Estados Unidos. Se assim for, traria uma série de consequências políticas econômicas, financeiras e até internacionais”, disse durante uma conferência em 08 de julho.
Xin lembrou que o PBoC foi o primeiro grande banco central a estudar as moedas digitais ainda em 2014 como uma ferramenta para “combater o desafio das criptomoedas como o Bitcoin”, no entanto, o fato de ter “começado cedo” não garante a liderança à China.
“[é preciso] muito trabalho ainda para consolidar nossa liderança”, acrescentou.
O executivo também declarou que o projeto já recebeu aprovação oficial da principal autoridade administrativa chinesa, o Conselho de Estado, para começar a trabalhar, junto com outros participantes e instituições do mercado, no projeto da moeda digital chinesa.
Ainda na conferência, Xin inaugurou uma iniciativa de pesquisa aberta sobre finanças digitais, que aproveitará os recursos acadêmicos das principais universidades chinesas, incluindo a Universidade de Pequim, a Universidade Renmin, a Universidade de Zhejiang e a Universidade Jiao Tong de Xangai, para acelerar os estudos sobre os impactos de uma moeda digital. Acadêmicos também lançaram uma iniciativa comprometida sobre finanças digitais que inclui recursos da Universidade de Pequim, da Universidade Renmin, da Universidade de Zhejiang e da Universidade Jiao Tong de Xangai.
Fonte: www.criptofacil.com

terça-feira, 9 de julho de 2019

Alto executivo do banco central europeu vê com ressalvas criptomoeda do Facebook



O membro do conselho executivo do Banco Central Europeu, Benoit Coeure, foi o último executivo do meio bancário internacional a pedir que os reguladores “movam-se mais rapidamente”, de modo a acompanhar as inovações que ocorrem no ecossistema nascente, incluindo criptomoedas e tecnologia blockchain.
De acordo com um relatório da Bloomberg no fim de semana, Coeure reconheceu que o recente anúncio do Facebook sobre criptomoeda, a Libra e da carteira digital Calibra serviu como “uma chamada de alerta bastante útil para reguladores e autoridades públicas, pois nos encoraja a levantar várias questões e pode nos fazer melhorar a forma como fazemos as coisas”.
Benoit ainda enfatizou:
“Está fora de questão permitir que o Facebook e as outras multinacionais que compõem a Associação Libra se desenvolvam em um vazio regulatório para suas atividades de serviços financeiros, porque é muito perigoso”.
 Fonte: moneytimes.com.br

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Bitcoin, Libra e outras criptomoedas: a reinvenção do dinheiro

Com o lançamento da Libra, moeda própria do Facebook, criptomoedas como o Bitcoin ganham força e popularidade - e preocupam Estados e autoridades.

A mais recente valorização do Bitcoin e o anúncio da criação, pelo Facebook, de uma moeda virtual própria, a Libra, trouxe as criptomoedas novamente para os holofotes. Contudo, como toda tecnologia recente e apontada como revolucionária, as criptomoedas, entre as quais está o Bitcoin, geram uma desconfiança natural.
Atualmente, existem mais de 5 mil  criptomoedas. O Bitcoin responde por mais da metade deste mercado, enquanto vinte outras criptomoedas correspondem a cerca de um terço de todo o montante de valor do mercado de criptomoedas. As mais famosas são a Ethereum, o Bitcoin Cash, a Litecoin, a Ripple e a Dash. Cada uma dessas criptomoedas funciona de forma diferente e possui características próprias.
As criptomoedas estão reinventando a forma como se faz transações financeiras. Em linhas gerais, o Bitcoin é uma forma de “dinheiro” digital que não é emitida por nenhum governo e que não está submetida a nenhuma autoridade central. O valor da moeda é determinado pelas transações do mercado. Negociações envolvendo Bitcoin são online, rápidas, mais baratas e seguras. E é justamente pela falta de controle estatal sobre os criptoativos que as criptomoedas são apreciadas por grupos libertários.
O mundo acadêmico ainda debate se o Bitcoin é uma moeda, ativo ou commodity, uma vez que, juridicamente, ele não pode ser considerado uma moeda. Adeodato Netto, especialista em Mercado de Capitais e Estrategista-Chefe da Eleven Financial Research considera que “o aspecto transacional e de circulação [do Bitcoin] até agora não tem comportamento minimamente similar ao de uma moeda”. Ele a vê “mais como um serviço”. Além disso, a maioria dos ativos financeiros, como ações de empresas ou commodities, está correlacionada ao desempenho de outros mercados, o que não ocorre com o Bitcoin. Assim, ele possui características de commodities, mas traz como inovação a reprodução da escassez para o mundo digital, estando atrelado a um lastro matemático, como explico abaixo.

Vantagens do Bitcoin: seguro, barato e rápido

Como escreve Fernando Ulrich no livro Bitcoin, a Moeda na Era digital (LVM Editora), da mesma forma que o e-mail mudou a forma como nos comunicamos, o Bitcoin mudará a forma como lidamos com o dinheiro. Isto é, as duas tecnologias eliminam intermediários. Assim como e-mail diminuiu a necessidade do carteiro, o Bitcoin diminuirá a necessidade das instituições financeiras.
Hoje analista-chefe da XDEX, Ulrich defende que o Bitcoin simula diversas características desejáveis a qualquer moeda: é escassa, divisível, portátil e incorpórea. Dessa forma, ela possibilita transferência de propriedade independentemente de onde você estiver, a um custo virtualmente nulo e sem intermediários. Com taxas de transação muito mais baixas do que em outras modalidades financeiras, segurança e proteção contra fraude, além de celeridade e privacidade, o Bitcoin é um sistema de pagamentos global descentralizado com potencial ainda inexplorado.
O Bitcoin funciona com o uso de duas chaves que ficam de posse do usuário. Uma delas é privada - só o usuário tem acesso. A outra é pública, e precisa ser compartilhada com outro usuário para que se possa realizar transações, como se a chave pública fosse o número da conta para realizar um depósito. Cada transação realizada gera um código registrado e exposto no blockchain, uma tecnologia que visa dar segurança a partir da descentralização. Grosso modo, o blockchain funciona como um grande banco de dados público que contém o histórico de todas as transações já realizadas, o que permite que elas sejam submetidas a auditorias. A criptografia garante que todos os computadores da rede tenham um registro constantemente atualizado e que as transações da rede Bitcoin sejam verificadas, o que evita fraudes no sistema.
Para verificarem as transações e manterem a segurança da rede, alguns usuários são remunerados com bitcoins recém-criados. Eles são os chamados “mineradores”: os responsáveis pelo processo de validação do registro das transações, incentivando a segurança do sistema do Bitcoin. A mineração é feita mediante um processo matemático gradualmente mais complexo. Deste modo, o ritmo de mineração desses bitcoins tende a cair.
Satoshi Nakamoto é o pseudônimo utilizado pela pessoa ou grupo de pessoas que criaram o Bitcoin. Ele foi exposto em um fórum de discussões na internet e a identidade é desconhecida. Ele definiu arbitrariamente a quantia possível de 21 milhões de bitcoins para simular escassez e reproduzí-la no ambiente digital, simulando uma commodity escassa e que precisa ser minerada. Estima-se que o processo de mineração desses Bitcoins demore até 2140 para se esgotar. Após esse esgotamento, a remuneração será feita  por meio de taxas de serviços. O lastro matemático é uma característica que reproduz o comportamento de uma moeda deflacionária, isto é, que não será depreciada por um agente externo - como um Banco Central - ao longo do tempo. É por causa dessas características que Franco e Bazan afirmam que “as criptomoedas são capazes de resolver problemas atuais e tradicionais do dinheiro fiduciário (como o real ou o dólar), funcionando de forma mais eficiente e controlada”.
Qualquer nova transação é verificada por meio de blockchain para assegurar que o usuário não tente burlar o sistema. O valor da moeda não está atrelado a nenhuma commodity, tampouco está sujeito a decreto governamental ou instabilidade política. Tudo se baseia na confiança no uso e execução desta tecnologia.
A criação e desenvolvimento das criptomoedas só foram possíveis com o crescimento da Internet. Mas há três fatores principais apontados para impulsionar seu desenvolvimento: a instabilidade do sistema financeiro em meio a Crise do Subprime, em 2008, o elevado nível de intervenção estatal no sistema bancário e a crescente perda de privacidade financeira.
Recentemente, o Facebook lançou a Libra, sua própria criptomoeda, que já nasce com um potencial dos mais de dois bilhões de usuários que compõem atualmente a rede social. Ao contrário do Bitcoin, porém, a estrutura da Libra é centralizada. Para Richard Rytenband, fundador da Convex Research, a Libra “pode motivar o debate em relação à emissão de moedas privadas e o monopólio monetário estatal”.

Criptomoedas não devem ser vistas como um substituto das moedas

Muitos analistas do mercado financeiro têm ressalvas com as criptomoedas por elas ainda não terem aplicações e utilizações mais comuns no dia a dia. Elas ainda são muito utilizadas como reserva de valor, sem grande adoção em comércio e transações menores por conta disso. Porém, há novidades animadoras nesse sentido.
Adeodato considera que as exchanges (corretoras de criptomoedas) que operarem com transparência poderão cumprir um papel transformador neste setor, popularizando a utilização de criptomoedas.
Isso porque, para a utilização de cartões de crédito e débito, é necessário que comerciantes contratarem uma administradora de cartões e arquem com suas despesas. Eventualmente há problemas, como consumidores que pedem estorno fraudulento e sistemas que ficam fora do ar. Além disso, a principal desvantagem dos cartões é a cobrança de taxas que acabam sendo repassadas aos consumidores. Com bitcoins, os custos das transações são menores e há mais celeridade no pagamento a empreendedores, o que facilita o planejamento contábil e o fluxo de caixa das empresas.

Volatilidade do Bitcoin gera debate sobre bolhas financeiras

O Bitcoin é muito volátil, com grandes valorizações e desvalorizações em intervalos curtos de tempo. Em 2019, por exemplo, o Bitcoin teve uma valorização superior a 150%.
A volatilidade do Bitcoin, bem como a ideia de que é um ativo desprovido de lastro, segere que a criptomoeda seja uma mera bolha especulativa. Como há milhares de criptomoedas, todas independentes entre si e com características diferentes, é possível que muitas delas sejam mesmo especulação ou fraudes, com estruturas que possibilitem inclusive a formação de pirâmides financeiras.
Segundo levantamento da empresa de segurança cibernética CipherTrace, as perdas de criptomoedas por roubo e atividades relacionadas a fraudes em 2018 totalizaram US$ 1,7 bilhão.
Na avaliação de Dave Jevans, presidente-executivo da empresa, “o crime com criptomoedas aumentou porque as regulamentações ainda são pouco aplicadas. A Europa ainda não implementou suas regulamentações e a comunidade de criminosos cibernéticos continua a crescer".
Na avaliação de Ulrich, o lastro não é uma necessidade teórica de uma moeda, apenas “uma tecnicalidade empírica cuja principal função foi a de servir como restrição às práticas imprudentes de banqueiros e a eventuais investidas inflacionistas de Bancos Centrais no gerenciamento da moeda”.
Bolha financeira é a valoração de ativos sem justificativa fundamental. A recente valorização de 40% do Bitcoin em poucos dias quer dizer que ele seja uma bolha, embora possa indicar que não há razões que justifiquem uma alta tão grande. Na visão de Rytenband, por exemplo, não há como determinar precisamente uma causa para a alta. “Em sistemas complexos, como é o caso das criptomoedas, não temos como determinar com precisão as relações de causa e efeito”, diz.
No mercado de ações, as bolhas são identificadas por meio da análise de indicadores da empresa, projeção do fluxo de caixas futuros e  se o preço das ações está em descompasso com o que seria esperado naquele determinado segmento de mercado. Um exemplo foi na Bolha da Internet, nos anos 1990. O caso mais emblemático foi o das ações do mecanismo de busca Yahoo, que, um ano antes de a bolha estourar, valia US$ 96 bilhões, com um lucro de apenas US$ 61 milhões.
Mas a análise de bolhas de criptomoedas é dificultada por suas próprias peculiaridades. Ao longo de sua história, o Bitcoin apresentou diversos picos de preço e ajustes, isto é, houve várias bolhas seguidas por ajustes. E a falta de liquidez é natural para uma tecnologia nova, que o mundo ainda está aprendendo a usar.

Atividades ilícitas com uso do Bitcoin

São comuns histórias de uso de critpomoedas, em especial o Bitcoin, para finalidades ilícitas, como tráfico, financiamento de organizações criminosas e lavagem de dinheiro. Segundo Ulrich, os temores têm fundamento porque, assim como o dinheiro em espécie e as moedas tradicionais, as criptomoedas “podem ser usadas tanto para o bem quanto para o mal”.
No caso específico do Bitcoin, o sistema fornece um registro público de todas as transações. O blockchain faz com que os registros de transações fiquem públicos e acessíveis a autoridades, anos depois de as transações terem sido realizadas. Assim, a rede pode se tornar menos atrativa para criminosos, na avaliação do economista.
Na visão de Carlos Henrique Barbosa, mestre em Corrupção e Governança pela Universidade de Sussex, como as criptomoedas são novidade, é difícil para um doleiro movimentar o volume financeiro necessário para que a atividade seja rentável sem ser percebido. À medida que que o uso de criptomoedas se tornar  algo mais recorrente, os riscos de se lavar dinheiro  por meio dela também aumentam: “A lógica da lavagem de dinheiro é sempre parecer o mais comum possível”, afirma.

Regulação de criptomoedas

Desde 2015 tramita no Congresso Nacional um projeto de lei do deputado federal Aureo Ribeiro (SD-RJ) para regulamentar as moedas eletrônicas. O mesmo deputado apresentou, em abril deste ano, novo projeto sobre o assunto, o PL 2060/2019.
A proposta tem como finalidade criar um ambiente “em que os elementos positivos da tecnologia do blockchain sirvam a fomentar a higidez e a transparência do Sistema Financeiro Nacional e ao mesmo tempo às necessidades da economia e aos anseios da população”.
Na avaliação de Rodrigo Borges, advogado, coordenador do curso de blockchaindo Insper e autor de Criptomoedas no Cenário Internacional: Qual a Posição de Bancos Centrais, Governos e Autoridades?”, as discussões sobre a regulação do mercado de criptoativos têm ocorrido em diversos países do mundo, sobretudo a partir de 2017. “Entendo que uma regulação deva ser precedida por um amplo debate, a fim de evitar que eventuais novas regras possam dificultar o desenvolvimento [das criptomoedas]. Da mesma forma, penso que não devemos regular a tecnologia em si, mas apenas o seu entorno, o mercado, a fim de proteger investidores, consumidores e empreendedores”, diz.
Em relação ao PL 2060/19, ele avalia que há uma evolução em relação ao PL 2303/15 apresentado anteriormente. “Isso mostra que os parlamentares estão acompanhando as evoluções e desenvolvimento do mercado. Mas entendo que alguns pontos ainda podem ser aprimorados, como as definições de criptoativos e exchanges, além de outras questões pontuais”.
Para o analista de relações governamentais da Atlas Quantum Matheus Héctor, o grande desafio para a regulamentação dos criptoativos é encontrar um marco legal que garanta a segurança jurídica ao setor, mas não asfixie a inovação. "Atualmente, fundos de investimentos só podem investir em criptoativos no exterior, preterindo empresas brasileiras", explica. Apesar disso, ele manifesta otimismo em relação à regulamentação. "Na audiência pública realizada recentemente no Senado, o parlamentar Arolde Oliveira (PSD-RJ) afirmou positivamente que o BlockChain apresenta avanços irreversíveis", diz.
Nas próximas semanas deve ser instalada uma Comissão Especial no Congresso para debater o projeto e dar os encaminhamentos possíveis.
Fonte: www.gazetadopovo.com.br

domingo, 7 de julho de 2019

A criptomoeda do Facebook tem potencial para substituir o dólar?



Há algumas semanas atrás, comentei aqui neste post do blog e também escrevi um artigo (em inglês) exclusivamente sobre o que eu esperava da Libra, a criptomoeda idealizada pelo Facebook.

Após o lançamento do whitepaper e demais informações técnicas nesta última terça-feira e após as primeiras reações da sociedade e dos governos, quero compartilhar com vocês as minhas primeiras impressões e rever algumas das minhas apostas.

Mas antes, afinal, o que vai ser a Libra?
Segundo o whitepaper, a Libra é uma criptomoeda “estável” (em relação às principais moedas do mundo atualmente, nominalmente o dólar, euro, yen e pound) emitida como blockchain, lastreado numa cesta de moedas e governada por uma fundação independente.

O objetivo principal é servir de meio de troca e pagamento global, o “dinheiro da internet”, e para isso, precisa de baixa volatilidade. De acordo com David Marcus, líder do projeto no Facebook e ex-CEO do Paypal, a Libra pode se tornar a fundação de um novo sistema financeiro global não controlado pelos bancos atuais, uma verdadeira mudança de paradigma. Na minha opinião é o primeiro banco central privado do mundo.

Meu objetivo é explorar algumas possibilidades e fazer reflexões sobre o que podemos esperar para o futuro da Libra e deste mercado. Se você ainda não entendeu bem como funciona ou o que é a Libra, há bastante gente explicando, mas recomendo começar pelo whitepaper e pelo site da Libra.

Conforme já deixei claro anteriormente, tenho mais interesse nos impactos econômicos e políticos do que nos aspectos tecnológicos da Libra. Vou me abster de comentar estes aspectos que não domino.

Adoção
Na minha opinião, o grande desafio será transformar a Libra em unidade de conta global. Ou seja, as pessoas passarem a precificar seus produtos, serviços, salários e gastos em Libra ao invés da sua moeda local ou o dólar.

Se os usuários dos grandes e-commerces, market places e apps como o Mercado Livre e Uber (membros fundadores) de fato começarem a utilizar a Libra como moeda referência, já será um grande passo nessa direção.

A minha aposta é que, em menos de três anos, a Libra será a moeda mais utilizada do mundo em quantidade de transferências e em menos de cinco anos será a moeda referência, ou unidade de conta, para a maior parte da população mundial.

Acredito nisto pois as pessoas em países com moedas frágeis como Argentina, Brasil, Venezuela e Zimbábue perceberão rapidamente que é melhor manter suas reservas em Libra do que em sua moeda local. Em pouco tempo suas economias serão "libralizadas".

Por que as pessoas irão preferir a Libra?
A Libra é uma tentativa de unir as vantagens das criptomoedas com as vantagens de se utilizar as moedas tradicionais mais fortes do mundo. Ao comprar ou aceitar Libras, os usuários estarão abrindo seus horizontes para o mundo, agilizando suas transações, diminuindo seus custos e quebrando barreiras de negócios. Isto levando em conta que estes usuários já tenham acesso a serviços financeiros e bancários, falarei adiante dos "desbancarizados".

Como disse no meu artigo sobre a Libra há uns meses atrás, a Libra abrirá as portas a um novo mundo que ainda nem conseguimos saber todas as consequências positivas. Não é apenas a capacidade de enviar e receber dinheiro de forma ágil entre os seus contatos do Whatsapp (apeasr disto já ser muito bom).

Eu acredito que em breve, os usuários da Libra poderão acessar produtos de investimentos globais que eram simplesmente inacessíveis até agora, por exemplo. Ou poderão fazer empréstimos pessoais ou financiar seu imóvel com juros mais acessíveis que em seus países de origem.

Qual o impacto disso para a economia global?
Acredito que começará a acabar a farra de governos e bancos centrais irresponsáveis e as consequências serão extremamente impactantes para todos nós.

Como a cesta de moedas (pelo menos inicialmente) é composta apenas de moedas fortes, pode haver uma fuga de capitais de países que suas moedas não fazem parte desta cesta.

Por que? Na prática, se um brasileiro vender Reais para comprar Libras, estes Reais serão utilizados para comprar a cesta de moedas que servirá de reserva para a Libra, inicialmente USD, GBP, YEN e EUR.

Será que os gestores da Libra Reserve comprarão de volta os Reais para compor o lastro? Não aposto nisso, mas talvez seja parte da negociação com estes próprios países se as autoridades tentarem dificultar ou proibir o seu uso.

E isto pode ser muito danoso para as contas destes governos e para a estabilidade destas economias a curto prazo. Porém, pode também ser muito beneficial para o bolso dos cidadãos destes países, que passarão a ter mais controle sobre suas riquezas e terão mais facilidade em guardar seus recursos em moedas fortes.

Reações negativas por parte dos governos e bancos centrais deverão acontecer, e se um país resolver combater a Libra, proibindo seu uso por exemplo, sua população poderá se revoltar, haverão mercados paralelos, maiores controles de capitais. Receita do caos.

Para dar um exemplo prático, estive na Argentina por algumas semanas no mês passado e tenho plena certeza de que os argentinos serão heavy users da Libra.

Boa parte da economia argentina já é dolarizada, todo argentino sabe o valor de ter reservas estrangeiras e sabe o dano que a inflação causa nos seus patrimônios. É um país com boa penetração mobile, infraestrutura de internet e possuem a comunidade de blockchain/crypto mais desenvolvida da América Latina. Adiós pesos argentinos.

A revolução no mercado de moedas
Concordo com a maioria dos analistas e não tenho dúvidas de que outros gigantes de tecnologia irão seguir a onda e, em breve, teremos mais moedas privadas do que moedas estatais. E isto será ótimo. Apenas espero que lancem suas criptomoedas com conceitos diferentes, não apenas replicando o modelo da Libra.

Particularmente, eu gostaria muito de ver um esforço em tentar diminuir a volatilidade em relação às moedas fiat tradicionais, porém sem necessariamente lastrearem 100% numa cesta de moedas.

Explorei algumas ideias no meu artigo anterior e penso que talvez até a própria Libria Association pode um dia deixar de usar o modelo atual de currency board para um câmbio flutuante.

Acredito que a maior pressão agora será em cima dos bancos centrais, para que eles também entrem no jogo de emitirem suas moedas digitais, o que o mercado chama de CBDC (Central Bank Digital Currencies). Será que em 2020 se inicia a briga dos bancos centrais estatais vs banco centrais privados?

"The unbanked"
No material de divulgação há um apelo para atender os “desbancarizados”. Se isso é estratégia de marketing ou será efetivamente uma expansão dos serviços financeiros comuns à maioria das pessoas nos países desenvolvidos para os países menos desenvolvidos e populações mais pobres, só o tempo dirá. Nos documentos da Fundação há claros incentivos à participação de ONGs com esse foco. Se isto se concretizar, será mais difícil para os governos combaterem a Libra.

Qualidade e seriedade
Para concluir, quero ponderar que apesar do projeto não está concluído ainda, fiquei bastante impressionado com a qualidade. Realmente está muito bem estruturado. Há clara intenção de tornar a Libra um projeto open-source, transparente, participativo e aberto à comunidade e à sociedade em geral.

Minhas dúvidas finais:

- Qual será em média o custo por transação? Como será o retorno/incentivo para quem fizer parte da rede? Poderão usuários comuns fazer parte também?
- Como serão investidos os recursos lastreados? Qual será o impacto na economia global? Serão os retornos distribuídos ou apenas farão crescer o lastro para além do necessário? Se sim, entre quem?
- Dará pra fazer forks? E se a comunidade fizer um fork com um modelo de governança e base monetários diferentes? Será possível criar uma ou mais criptomoedas e distribuir pra mesma base de bilhões de usuários? 
- Se as grandes exchanges implantarem a Libra, a eficiência de arbitragem deve melhorar bastante, diminuindo os spreads das cryptos entre exchanges, agilizando o trabalho dos arbitradores. Qual será o impacto disso no mercado de cripto atual? 
- Como as instituições financeiras se adaptarão a esta nova realidade?

Bernardo Quintão

Fonte: www.infomoney.com.br